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Sab, Ago

Como cresce a tensão entre França e Itália

Internacional
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O último episódio desagradável nas relações entre a França e a Itália aconteceu ontem. Num gesto inédito desde a Segunda Guerra Mundial, na quinta-feira, Paris convocou o embaixador francês na capital italiana, Christian Masset.

No centro do escalar de tensões entre Paris e Roma está a visita a Paris do vice primeiro-ministro italiano, Luigi di Maio e encontro com elementos do movimento dos coletes amarelos. Num gesto inédito desde a Segunda Guerra Mundial, na quinta-feira, Paris convocou o embaixador francês na capital italiana, Christian Masset.

Casos anteriores

Mas o de ontem não é um caso isolado. Dois episódios ocorridos no mês de janeiro, a menos de um mês, demonstram como os governos da França, da Alemanha e da Itália estão divididos quando se trata de imaginar um futuro conjunto para o Velho Continente. No dia 22 de janeiro, o bloco dos entusiastas da União Europeia, liderado por franceses e alemães, defendeu a integração regional a todo custo. No mesmo dia, ouviu de volta uma resposta agressiva da extrema direita italiana, que põe o nacionalismo acima dos interesses do grupo que hoje congrega 28 países e que vê um de seus parceiros mais fortes, o Reino Unido, deixar o grupo desde que o Brexit foi aprovado por maioria, no referendo de junho de 2016. No centro da disputa, está uma questão que surgiu com a própria criação do conceito de Estado-nação, durante a Paz de Vestfália, na Europa de 1648: quais são os limites precisos entre a soberania total e a necessidade de submeter essa soberania nacional a regras, acordos e organizações internacionais. Nos últimos anos, o debate atende pelo nome “nacionalismo x globalismo”, e encontra expressão não apenas na Europa, mas também em países mais jovens.

França e Alemanha estão na origem da integração europeia iniciada no pós-Guerra (1945). O presidente francês Charles De Gaulle (1959-1969) e o chanceler alemão Konrad Adenauer (1949-1963) foram os arquitetos dessa reaproximação. Os laços rompidos pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945) começaram a ser refeitos a partir do encontro entre De Gaulle e Adenauer em Colombey-les-deux-Églises, no nordeste da França, em 1958, e seguiram até a assinatura do Tratado de Eliseu, em 1963.

Esse espírito foi relembrado no dia 22 pelo presidente da França, Emmanuel Macron, e pela chanceler alemã, Angela Merkel. Reunidos em Aix-la-Chapelle – primeira cidade alemã a cair nas mãos dos Aliados, após seis semanas de combates, em outubro de 1944 – ambos se referiram à União Europeia como a continuidade do espírito do Tratado de Eliseu, firmado por De Gaulle e Adenauer. O acordo firmado entre Merkel e Macron em Aix-la-Chapelle é bilateral. Diz respeito apenas a alemães e franceses. Mesmo assim, os dois estenderam o discurso para além de suas fronteiras, fazendo referência ao bloco como um todo. “União, solidariedade, coesão”, disse Macron em sua conta no Twitter. “Nosso dever com a Alemanha de hoje é fazer da Europa um escudo para proteger nossos povos das mudanças do mundo. Esse é o sentido do tratado de Aix-la-Chapelle que eu assinei com a chanceler Angela Merkel.”

A voz do nacionalista No mesmo dia  (22), o ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, publicou mensagens em suas redes sociais – tanto no Twitter quanto no Facebook – dizendo esperar que os franceses se libertem do “péssimo” Macron e escolham alguém “mais sério, representativo e coerente” para governar o país. Salvini é um dos principais nomes da extrema direita europeia hoje. Ele é ministro do Interior e chegou ao governo da Itália em junho de 2018 pela Liga, que, associada com o partido anti-sistêmico 5 Estrelas, reforçou a onda conservadora que também chegou ao poder na Hungria e na Polônia, e cresceu em número de votos na Alemanha e na França.

Num dos posts em que atacou Macron, Salvini fez referência ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, dizendo esperar ter de parte do governo francês o mesmo comportamento que o novo governo brasileiro teve recentemente. A referência de Salvini foi ao fato de Bolsonaro ter apoiado a deportação do italiano Cesare Battisti, que, condenado à prisão perpétua na Itália, fugiu do interior de São Paulo para a Bolívia, onde acabou encontrado, preso e deportado, em 13 de janeiro. 

Mas há mais confronto entre Salvini e Macron. Em junho de 2018, o presidente francês disse que o governo italiano tinha uma política “cínica” e “irresponsável” para lidar com a imigração. À época, a Itália tinha se recusado a receber uma embarcação de nome Aquarius, que trazia 630 imigrantes a bordo. O barco acabou sendo acolhido pela Espanha três dias depois. Salvini foi ao Senado italiano e fez um duro discurso contra Macron, a quem chamou de “hipócrita”.

A França chamou de volta seu embaixador em Roma e uma reunião entre os dois governos foi cancelada na sequência. Após o mais recente embate entre Salvini e Macron, a ministra francesa de Relações Europeias, Nathalie Loiseau, disse que a intenção da França “não é entrar num concurso de quem é o mais besta”, a três meses da eleição para o Parlamento Europeu, que acontece no dia 26 de maio.

TN- Redação