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Sex, Mar

Os significados da eleição na República Democrática do Congo

Internacional
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Maior país da África subsaariana vive sua primeira grande mudança política em quase 60 anos, mas resultado ainda pode ser contestado 

 

A República Democrática do Congo – maior país da África subsaariana, do tamanho da Europa Ocidental – passou a viver nesta quinta-feira (10) a primeira grande alternância política de sua história contemporânea. 

O opositor Félix Tshisekedi foi declarado vencedor da eleição presidencial realizada no dia 30 de dezembro de 2018, com 38,57% dos votos. O máximo que o candidato governista Emmanuel Ramazani Shadary conseguiu foi um terceiro lugar, com 23,8%. 

Shadary é apadrinhado do atual presidente, Joseph Kabila, membro de uma dinastia atrelada ao poder no país desde os anos 1990. O segundo colocado foi Martin Fayulu, com 34,8%. Os resultados não são finais, mas, ao proclamar Tshisekedi vencedor, o órgão eleitoral considerou que não havia possibilidade matemática de reversão. 

Ainda assim, o segundo colocado, Fayulu, promete recorrer à Suprema Corte, alegando que houve uma fraude.

A importância de RDC 

O país é conhecido pela sigla RDC, de República Democrática do Congo. A capital é Kinshasa. RDC é confundida às vezes com o Congo, cuja capital é Brazaville. Porém, são países diferentes. RDC é hoje o maior produtor e exportador mundial de cobalto, elemento indispensável para a indústria de alta tecnologia, incluindo o desenvolvimento de carros elétricos. O país também tem localização geopolítica estratégica, pois está no centro da África e faz fronteira com nove países. Tem população de mais de 80 milhões de habitantes. 

Quem é o novo presidente 

Tshisekedi é membro da elite congolesa. Ele passou a maior parte da vida em Bruxelas, na Bélgica, potência colonial que dominou a RDC até a independência do país africano, em 1960. O pai do novo presidente, Etienne Tshisekedi (1932-2017), foi um dos maiores opositores tanto do ditador Mobutu Sese Seko, que comandou a RDC por mais de 30 anos, como, em seguida, dos membros da dinastia Kabila.

Ao ser declarado vencedor, Tshisekedi fez um discurso apelando à união nacional. Ele declarou que não vê em Joseph Kabila um inimigo, mas “um importante parceiro político”. A declaração contrasta com os discursos de campanha, nos quais Tshisekedi se referia a uma vitória necessária contra “a ditadura Kabila”. 

Qual a história da República Democrática do Congo 

O país conseguiu sua independência da colonização belga em 1960, e após cinco anos de instabilidade política, teve o poder tomado por Joseph Mobutu Sese Seko num golpe que instaurou o autoritarismo no país por três décadas.

A partir do início da década de 1990, Mobutu começou a perder força e concordou em restaurar o multipartidarismo no país – que desde 1970 chamava Zaire. Em 1997, o guerrilheiro de oposição Laurent Kabila se juntou a aliados de Ruanda e venceu as tropas de Mobutu, assumindo o poder na República Democrática do Congo, que recuperou seu nome.

Contudo, a guerra civil não terminou, e rebeldes apoiados por vizinhos entraram em conflito com as tropas de Kabila, também apoiado por outros países da região. Kabila foi assassinado em 2001 e substituído por seu filho, Joseph, que passou a apostar numa estratégia de reconciliação. Em 2002, foi assinado um acordo entre as partes rivais, estabelecendo um governo de transição com instituições próprias.

A primeira eleição presidencial seguinte, em 2006, foi vencida por Joseph Kabila, que permanece no poder até agora e, se confirmado o resultado anunciado nesta quinta-feira (10), será substituído por Tshisekedi.