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Ter, Dez

O impacto do uso solo na crise do clima, segundo este relatório

Ambiente
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Nova publicação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) aponta relação entre aquecimento global e atividades como desflorestação e agropecuária.

 

Maior autoridade científica no tema mudança climática, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), grupo global de pesquisadores vinculado às Nações Unidas, divulgou na quinta-feira (8) um relatório que aponta a degradação do solo como fator de agravamento do aquecimento global, de acirramento de conflitos por terra e de risco para produção de alimentos. 

O relatório mapeia a situação atual do uso do solo no mundo, com enfoque em atividades como a agropecuária e a desflorestação. O material foi produzido por 103 cientistas de 52 países. É o estudo mais completo feito até hoje sobre esse tema.

Autores do estudo, reunindo conclusões de pesquisas internacionais recentes, afirmam que a terra está sob crescente pressão humana e que enfrentar a mudança climática passa por soluções envolvendo o uso sustentável do solo. Por outro lado, apenas resolver os problemas da terra não é o bastante para combater os efeitos da crise, segundo os pesquisadores. 

A publicação foi divulgada quase um ano depois de outro relatório do IPCC, de outubro de 2018, ter apontado as dificuldades de limitar o aquecimento da Terra a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, meta ideal definida por mais de 190 países no Acordo de Paris de 2015. Atualmente, o aumento das temperaturas em relação àquele tempo bate 1,1ºC. A publicação foi seguida de ondas de protestos reivindicando esforços para a ação climática em diferentes cidades do mundo.  

O que diz o relatório do IPCC 

A principal preocupação manifestada pelo IPCC no novo estudo envolve um dilema entre sustentabilidade, segurança alimentar e estabilidade social num planeta com população crescente, menos disponibilidade de terra para cultivo e cada vez mais afetado pelo aquecimento global. 

A exploração atual de recursos naturais não tem precedentes. Atualmente, por causa da ação humana, ¼ da terra firme não coberta por gelo passou por degradação — termo que descreve a redução ou perda da produtividade, da integridade biológica (ou seja, de nutrientes) e do valor económico do solo —, fator que inviabiliza tanto a florestação como a agricultura e tende a acentuar conflitos por terra.

As projeções de crescimento populacional indicam que a demanda de alimentos deve aumentar significativamente até 2100. Por outro lado, se a demanda for respondida com a expansão da fronteira agropecuária, as emissões de poluentes que acentuam a mudança do clima também devem crescer. Intensificado, o aquecimento global, por sua vez, deve provocar queda da produtividade no campo, apontam cientistas. 

A questão da produção de alimentos 

Por depender diretamente do regime de chuvas, o sistema agrícola pode ser um dos setores mais afetados pela mudança do clima, com mais ou menos danos a depender da região. A estabilidade da produtividade agrícola tem projeções de queda e o aumento dos níveis de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera pode levar à redução da qualidade de nutrientes dos alimentos cultivados, aponta o IPCC. Em 2014, alterações no clima já afetavam negativamente safras de milho e trigo em alguns locais do planeta. Uma projeção do IPCC estima um aumento médio de 7,6% nos preços de cereais em 2050, com “crescente risco de insegurança alimentar e fome”. Os desafios devem aumentar com o incremento da população mundial, que pode chegar a 11,2 bilhões de pessoas em 2100, segundo o relatório divulgado. 

Ainda que não tenha recomendações diretas sobre mudanças na dieta global, a publicação faz referências a consequências negativas do crescente consumo de carne, como as emissões do gás metano (que vem dos bois) e a desflorestação de florestas para dar lugar aos pastos. 

A única sugestão registrada sobre o assunto fala genericamente em “políticas para influenciar escolhas de dieta”. “Cientistas sociais disseram que era eticamente inaceitável pedir para a população que nunca teve acesso à carne anteriormente abrir mão da carne para deixar o pessoal dos países desenvolvidos continuar andando com seus carros”, disse o cientista Paulo Artaxo ao jornal Folha de S.Paulo (Brasil). 

A questão das emissões de carbono 

Um dos grandes desafios do futuro do uso da terra envolve reduzir as emissões de dióxido de carbono e outros gases do efeito estufa, provocadas por atividades como a desflorestação e a agropecuária. Para o IPCC, é inviável atingir a meta de 1,5ºC do Acordo de Paris sem forte sequestro de carbono (nome que se dá à “remoção” do CO₂ da atmosfera), tarefa que exige que florestas tropicais continuem em pé. 

Além do CO₂, outros dois gases-estufa, o óxido nitroso (N₂O) e o metano (CH4), destacam-se no uso da terra. Tanto fertilizantes utilizados para aumentar a produção agrícola como gado e plantações de alagamento (como o arroz oriental) têm níveis mais altos de emissões.

A publicação dá destaque para a Amazônia, maior floresta tropical do mundo e responsável pela absorção de cerca de 14% das emissões de carbono no planeta. A floresta, contudo, perdeu 55,3 milhões de hectares de 1990 até 2010, aponta o IPCC. A alta da desflorestação, se persistir, poderia fazer a região perder seu potencial de sequestro de gases do efeito estufa, transformando-a, pelo contrário, em emissora. 

 

A crise do clima 

EMISSÕES 

Atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e a desflorestação emitem grande quantidade de gases formadores do efeito estufa, causando um desequilíbrio na composição da atmosfera. A atmosfera é importante porque regula as condições do clima e, consequentemente, afeta a vida na Terra. Entre os principais gases formadores do efeito estufa estão o metano (CH4), o óxido nitroso (N₂O) e o gás carbônico (CO₂). Esses gases podem durar de 50 a 200 anos na Terra, influenciando temperaturas, regimes de chuvas, correntes marítimas e de ar. 

EFEITO ESTUFA 

O efeito estufa é um fenômeno que ocorre a partir da ação de uma camada de gases — entre eles, metano e gás carbônico — na atmosfera. Os gases retêm parte da radiação solar que chega à Terra e, com isso, impedem que o planeta seja fatalmente frio. Trata-se de um fenómeno natural, necessário à vida na Terra. O problema acontece quando há um agravamento desse fenómeno. A emissão de gases formadores do efeito estufa pelas atividades humanas tem tornado a camada mais espessa, o que leva a mais retenção de calor. 

AQUECIMENTO DA TERRA 

O aquecimento global é o resultado do aumento das emissões de gases-estufa e a principal evidência da mudança no clima. Sua consequência mais visível tem sido o aumento da temperatura do ar, mas ele também provoca modificações nas correntes marítimas e de ar e efeitos como o derretimento de calotas polares e a elevação do nível das águas. A expressão “mudança climática” é um sinónimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição. Um relatório do IPCC de 2018 afirmou que a temperatura mundial pode aumentar 0,5ºC em 10 anos se as emissões não forem cortadas. 

 

As recomendações do estudo 

A publicação do IPCC faz uma série de recomendações para a agropecuária, na intenção de incentivar o uso sustentável da terra. Entre elas, estão técnicas de preparo do solo, uso da dieta de animais, tecnologias de adaptação do cultivo e formas de agricultura que façam o solo reter carbono e nutrientes, tentando reduzir os riscos de insegurança alimentar sem expandir a fronteira agrícola sobre florestas. 

Algumas soluções, como a produção de biocombustíveis (como o etanol) que substituem a energia fóssil e o plantio de extensas áreas florestais, como forma de aumentar as taxas de sequestro de carbono, não são um consenso, porque poderiam acirrar disputas por terra. No caso dos biocombustíveis, há também chance de degradar o solo ou, ainda, criar pressão para mais desflorestação.

As sugestões foram propostas como forma de limitar o aquecimento da Terra a 2ºC em relação aos índices pré-industriais. Idealmente, a medida segura seria 1,5ºC, como definiu o Acordo de Paris, mas um relatório do IPCC sugere que restam poucas opções para esse cenário. 

Uma das medidas consideradas mais eficazes pelos cientistas é combater a desflorestação. A preservação é mais barata que a reflorestação e tem efeito imediato, enquanto florestas plantadas devem crescer antes de ter efeitos significativos sobre as emissões. Ainda assim, cientistas do IPCC concordam que, sem interromper a queima de combustíveis fósseis, que representam a maior parte dos lançamentos, não será possível mitigar de fato a crise do clima.

 

TN - Redação