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Sex, Nov

500 anos da Reforma Protestante: o que estamos a fazer pela Unidade*

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Cumprem-se hoje 500 anos sobre o início da Reforma Protestante, um extraordinário, e muito complexo movimento histórico iniciado por Martinho Lutero aquando da fixação em Vitemberga das suas chamadas 95 Teses e que ao longo de cinco séculos trouxe à Europa um misto de benefícios e terríveis dores.

 

A rutura da Unidade da Igreja, valor eclesial absolutamente fundamental, é uma das coisas mais sérias, e problemáticas, que temos nos vinte séculos da nossa história. Lutero morreu a 18 de fevereiro de 1546, em Eisleben, a cidade que 63 anos antes o tinha visto nascer, pouco depois de ter pronunciado o seu último Sermão. Na dimensão plurifacetada da sua vida e da sua gigantesca obra, Lutero, tanto para o bem como para o mal, de novo o digo, constitui uma das grandes figuras da história europeia dos últimos 500 anos, alguém cujo contributo foi decisivo para que a Idade Média na Europa chegasse ao fim e se abrissem as portas da Modernidade.

Hoje, aqui em Roma, espero ter oportunidade de ouvir o Professor Norbert Lammert, Presidente do Bundestag/Parlamento Alemão entre 2005-2017, falar, ele que é membro da Igreja Católica, sobre a Efeméride que hoje ocorre e se celebra um pouco por todo o mundo, mas sobretudo no espaço de língua alemã.

No que me diz respeito, sou de parecer que a personalidade de Lutero é sumamente fascinante, mas também altamente confusa. Por certo, estamos na presença de um daqueles génios que na história humana fazem de tudo, incluindo, e de forma extraordinária, um radical testemunho de serviço ao Evangelho e à unicidade de Cristo. Nem sempre de forma justa e correta, mas nunca sem deixar de vibrar com a Palavra da Salvação.

Seja como for, a Reforma Protestante permanece um acontecimento de enorme importância, e por duas razões fundamentais o digo: 1. porque a Reforma foi um daqueles momentos históricos do nosso passado que, em grande medida, explica o nosso presente, sobretudo no Ocidente, mas não só; 2. porque do ponto de vista teológico a divisão da Igreja é uma das feridas mais dolorosas que os cristãos, sabendo-o ou não, continuam a infligir ao Corpo Místico de Cristo.

Por boa razão, poucos meses depois da sua Eleição, Papa Francisco disse a uma delegação da Federação Luterana Mundial o seguinte: «Católicos e luteranos podem pedir perdão pelo mal que fizeram uns aos outros e pelas culpas cometidas diante de Deus, e em conjunto alegrar-se com a nostalgia de unidade que o Senhor desperta nos nossos corações, e que nos faz olhar para o futuro com um olhar de esperança». Palavras programáticas, e profundas, estas que Papa Francisco proferiu em outubro de 2013.

A Unidade da Igreja, uma que só se pode, ou deve pensar em consonância com uma afirmação do respeito por todos devido à legítima diversidade de tradições e costumes, constitui tarefa prioritária para todos os cristãos. A comemoração hodierna dos 500 anos do início da Reforma luterana deveria, pois, constituir estímulo para novas investigações históricas e teológicas, filosóficas e antropológicas, de modo a que nas Igrejas se cresça na compreensão mútua, no apreço comum pelo essencial, no respeito pela legítima diversidade, no empenho para que as comunidades cristãs, todas elas, cada vez mais e cada vez melhor falem a uma só Voz, com Cristo, no momento de articular os artigos essenciais da Fé, de promover o Bem Comum no contexto global da nossa realidade atual, enfim, de anunciar a todos os homens e mulheres em busca de um Mais que traga sentido às suas vidas que, em Cristo, todos, sem distinção de cultura, raça ou língua, pela comunhão que temos na Igreja de Cristo, somos membros vivos do Corpo Místico. Sentir nostalgia da Unidade que nos falta é, só por si, uma grande Graça que o Espírito concede ao nosso tempo.

O Concílio Vaticano II foi um desses momentos maiores em que a nostalgia da Unidade que temos em Cristo, e por Ele com o Pai, e consequentemente e entre todos os que partilhamos a condição humana, se implantou bem firme na consciência eclesial do nosso tempo. Mas a pergunta permanece: que estamos, realmente, a fazer para que a Unidade a que Cristo nos chama se torne realidade concreta nesta pequena porção da História que nos toca? Fazer o que quer que seja com Cristo, por Cristo e em Cristo, só por si, deveria, em todos os casos, ser fator de unidade.

Se não for, é porque no fazer do que fazemos ainda não fazemos a «Cristo» realmente. Possa, então, uma data como a de hoje ajudar a que muitos cristãos de matriz protestante-evangélica possam recordar a Lutero não só como o reformador que foi em pleno século XVI, mas também como alguém capaz de servir a Palavra de Deus, que estudou e conheceu como poucos no seu tempo, e que ainda hoje nos ensina o valor e a importância de à Palavra dar a atenção que, em cada caso, lhe é devida.

 

Pe. João Vila Chã, SJ (publicado no seu perfil de Facebook)

*Título da autoria da Redação