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Sex, Nov

A “boa notícia” como metáfora, a metáfora como boa notícia

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Francisco promove mais uma “revolução comunicacional” em sentido eclesial, apontando para a necessidade de abandonar toda autorreferencialidade discursiva de quem fala de um púlpito alheio à realidade das pessoas. O desafio é buscar um “estilo comunicativo aberto e criativo”, pondo a mão na massa da história e da realidade para fazer um “pão perfumado”, como metáfora da boa comunicação.

A opinião é de Moisés Sbardelotto, jornalista e doutor em Ciências das Comunicação.

 

Eis o texto.

Na sua mensagem para o 51º Dia Mundial das Comunicações Sociais – celebrado o próximo domingo, 28 de maio, festa da Ascensão do Senhor – o Papa Francisco eleva a metáfora a “forma misericordiosa” de comunicação, capaz de abrir um “espaço de liberdade” para o outro com quem se comunica. Assim, Francisco promove mais uma “revolução comunicacional” em sentido eclesial, apontando para a necessidade de abandonar toda autorreferencialidade discursiva de quem fala de um púlpito alheio à realidade das pessoas. O desafio é buscar um “estilo comunicativo aberto e criativo”, pondo a mão na massa da história e da realidade para fazer um “pão perfumado”, como metáfora da boa comunicação.

“Comunicar esperança e confiança, no nosso tempo”: esse é o tema da mensagem. O texto reflete sobre a frase do profeta Isaías: “Não tenhas medo, que Eu estou contigo” (Is 43,5), que serve de título para a reflexão papal. O pontífice situa sua reflexão em um contexto comunicativo marcado, muitas vezes, por “más notícias”. Trata-se de um cenário comunicacional que conhecemos muito de perto no Brasil, em que o jornalismo sensacionalista e a intolerância nas redes sociais digitais vão ganhando cada vez mais espaço. Nesse sistema comunicativo, “em que vigora a lógica de que uma notícia boa não desperta a atenção e, por conseguinte, não é uma notícia, e em que o drama da dor e o mistério do mal facilmente são espetacularizados”, podemos anestesiar a consciência ou cair no mau humor, na resignação, na apatia, no desespero.

O convite é a “romper o círculo vicioso da angústia e a deter a espiral do medo”. Por isso, a mensagem exorta a uma “comunicação construtiva, que, rejeitando os preconceitos contra o outro, promova uma cultura do encontro por meio da qual se possa aprender a olhar, com convicta confiança, a realidade”.

Depois de articular, nas mensagens dos anos anteriores, o ícone do Bom Samaritano e a comunicação como proximidade (“Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro”, 2014), o ícone da visita de Maria a Isabel e a comunicação em família (“Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”, 2015), e a relação entre a comunicação e a misericórdia no ano do Jubileu Extraordinário (“Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo”, 2016), o pontífice apresenta, em 2017, o ícone da “Boa Notícia por excelência, ou seja, o ‘Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus’”.

A partir dessa imagem, ele convida a buscar um “estilo comunicativo aberto e criativo”, mediante uma “abordagem propositiva e responsável” dos fatos. Assim, o pontífice convoca e encoraja a todos, no dia a dia, a oferecer relatos “permeados pela lógica da ‘boa notícia’”.

A “boa notícia” como metáfora

Com o objetivo de revelar essa lógica, o pontífice utiliza diversas metáforas. Uma delas são os óculos para enxergar a boa notícia onde menos se espera. Segundo o Papa Francisco, a vida humana não é mera crônica asséptica de eventos, mas é “uma história à espera de ser contada”. Portanto, afirma, “tudo depende do olhar com que a enxergamos, dos ‘óculos’ que decidimos pôr para ver: mudando as lentes, também a realidade aparece diversa”. E isso também diz respeito às “lentes” midiáticas que leem a realidade que depois nos é contada nos sites, jornais, TVs, rádios: mudar as lentes, muitas vezes, é como mudar de mundo.

Outra metáfora é a semente. Uma comunicação cristã, explica o pontífice, é aquela que ocorre na perspectiva da “esperança do Reino de Deus, ou seja, “como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce” (Mc 4,26-27). “O Reino de Deus”, continua o papa, “já está no meio de nós, como uma semente escondida a um olhar superficial e cujo crescimento acontece no silêncio”.

Em termos midiáticos, também há aqui, nas entrelinhas, uma advertência: a comunicação cristã, em sua ação pastoral e evangelizadora, foge de toda e qualquer “autorreferencialidade comunicacional”. A semente que lançamos não cresce por nossa causa, nem pela qualidade do “lançamento” que fazemos, muito menos pela quantidade de sementes lançadas: a semente germina e cresce por uma força que nos supera, por uma ação que nos escapa. E o mais importante: seu crescimento “acontece no silêncio”. Qualquer “autoexaltação” do semeador sobre o crescimento da semente, além de mentirosa, como acabamos de dizer, trai o que, de fato, acontece.

No Ângelus do dia 23 de outubro do ano passado, o Papa Francisco falava justamente que vivemos um tempo de missão e, por isso, um tempo de coragem. Mas, especificou, “ter coragem não significa ter garantia de sucesso”. A coragem de que o pontífice fala é a coragem “para lutar, não necessariamente para vencer; para anunciar, não necessariamente para converter”. É a coragem para comunicar – poderíamos acrescentar –, não necessariamente para aparecer.

Há ainda outra metáfora, a principal, que simboliza a própria Boa Notícia por excelência e orienta toda a mensagem. Trata-se do pão. “A mente do homem – diz o papa – está sempre em ação e não pode parar de ‘moer’ o que recebe, mas cabe a nós decidir o material que lhe fornecemos.” Por isso, Francisco dirige sua mensagem como “um encorajamento a todos aqueles que diariamente, seja no âmbito profissional seja nas relações pessoais, ‘moem’ tantas informações para oferecer um pão perfumado e bom àqueles que se alimentam dos frutos da sua comunicação”.

Pensar a comunicação – toda ela, profissional ou não – a partir da imagem do pão nos leva a refletir sobre um processo que é criativo, tentativo, artesanal, local. Em uma formada, não há dois pães iguais; cada um traz as marcas de quem os preparou, da receita utilizada, das mãos que o amassaram, da fôrma que lhes deu forma, do calor recebido do forno. Também não há dois pães com o mesmo sabor, mesmo que tenham sido feitos exatamente com a mesma receita e pelo mesmo padeiro: o sabor do pão está na relação com aquele que o degusta.

Em um encontro com os membros do Movimento dos Focolares, em fevereiro, o Papa Francisco aprofundou essa metáfora. Ele explicou que, em uma época em que não havia geladeiras, para conservar o fermento-mãe do pão, uma vizinha doava à outra um pouco da massa fermentada e, quando tinha de fazer o pão de novo, recebia de volta um pouco dessa massa. Esse gesto de reciprocidade mantinha o fermento vivo e ativo, sem deixá-lo apodrecer, em uma corrente de generosidade em que um pão gerava outro, uma mão ajudava a outra. Assim, disse o papa, “a comunhão não é só divisão, mas também multiplicação dos bens, criação de novo pão, de novos bens, de novo Bem com maiúscula”.

O mesmo pode ser dito sobre a comunicação. Comunicar é multiplicar palavras, sons, imagens, para manter vivas as relações interpessoais, na reciprocidade dos laços humanos. É ser criativamente generoso, também onde parece faltar o “fermento” necessário para o “pão” da comunicação. Como afirma Francisco, até mesmo “qualquer novo drama que aconteça na história do mundo torna-se cenário possível também de uma boa notícia, uma vez que o amor consegue sempre encontrar o caminho da proximidade e suscitar corações capazes de se comover, rostos capazes de não se abater, mãos prontas a construir”.

Por isso, em perspectiva cristã, toda pessoa que se deixa “guiar pelo Espírito Santo, torna-se capaz de discernir em cada evento o que acontece entre Deus e a humanidade”, reconhecendo Sua presença no “cenário dramático deste mundo”. Vendo e lendo a realidade a partir dos “óculos” da Boa Notícia que é Jesus, “o próprio sofrimento é vivido em um quadro mais amplo, como parte do Seu amor ao Pai e à humanidade”.

A metáfora como boa notícia

Ao relacionar a “lógica da boa notícia” com tais símbolos, o Papa Francisco eleva a própria metáfora como “forma misericordiosa” de comunicação. Segundo ele, a metáfora “deixa ao ouvinte o ‘espaço’ de liberdade”, que, assim, pode acolher a “força humilde do Reino”. Portanto, a metáfora é uma forma de linguagem que abre mão do seu poder discursivo, concedendo ao interlocutor um “espaço de liberdade”.

Umberto Eco também dizia que um texto também deixar ao leitor a “iniciativa interpretativa”. “Todo texto – dizia Eco em seu livro Lector in fabula – quer que alguém o ajude a funcionar.” Assim também as metáforas: a sua eficácia não é tanto um problema daquele que as profere, mas sim daquele que as interpreta, daquele que as faz funcionar a partir de uma conexão de referências existentes na sua própria “enciclopédia pessoal” de saberes, vivências e experiências.

E o próprio pontífice possui uma grande capacidade de “metaforizar”: “cheiro de ovelhas”, “Igreja em saída”, “periferias existenciais”, “Igreja hospital de campanha”, entre outras imagens. Na própria mensagem, o papa recorre ainda a outras metáforas para convocar as pessoas a serem comunicadoras de boas notícias e da Boa Notícia por excelência: alimentar-se do “Evangelho que foi ‘reimpresso’ em tantas edições nas vidas dos Santos”, tornar-se “ícones do amor de Deus”, “‘canais’ vivos” do Reino, “faróis na escuridão deste mundo, que iluminam a rota e abrem sendeiros novos de confiança e esperança”.

É o mesmo que Jesus fazia para falar do Reino, ao usar as parábolas da ovelha perdida, da lâmpada, da moeda, da pérola, da semente de mostarda, entre tantas outras. Isto é, são as próprias imagens, mais do que qualquer conceito teórico, que comunicam a boa notícia. “Compreender as metáforas – confidenciou o pontífice aos jesuítas da revista italiana La Civiltà Cattolica, em uma audiência em fevereiro – ajuda a tornar o pensamento ágil, intuitivo, flexível, afiado. Quem tem imaginação não se enrijece, tem senso de humor, desfruta sempre da doçura da misericórdia e da liberdade interior.”

Em termos teórico, toda metáfora exige um excedente de interpretação. Ou, como diz o papa, uma interpretação “ágil, intuitiva, flexível, afiada”. Eco também destacava um valor cognoscitivo a partir das metáforas: elas nos fazem conhecer aspectos novos das coisas, despertando inferências talvez ainda não pensadas sobre algo.

Levando ao extremo, podemos dizer que uma metáfora não tem sentido. Este só vai poder emergir a partir do processo interpretativo de quem a recebe. A metáfora, por parte de quem a enuncia, oferece “um sentido outro” sobre a realidade e, assim, “um” sentido para o caminho interpretativo de quem a recebe. Mas esse sentido sempre se cruza com inúmeros outros caminhos e encruzilhadas de sentidos, de contextos, de culturas em que o receptor se situa, abrindo a metáfora inicial a diversos outros sentidos, reconstruções e ressignificações.

Assim, uma mesma metáfora terá sentidos diferentes para duas pessoas, em um movimento índeterminado e infinito de relações, conexões, remissões de sentidos (e aqui podemos pensar a própria metáfora metaforicamente, como um “tecido de sentidos”, que são sempre tecidos a partir de fios de outros tecidos-metáforas ou mesmo costurando vários tecidos-metáforas, como um patchwork simbólico, valendo-nos de mais essa “metáfora da metáfora”. Aliás, na própria mensagem, o papa fala que Deus está compondo “a trama de uma história de salvação”, cujo “fio” é a esperança, e cujo “tecedor só poder ser o Espírito Consolador”).

Em suma, a metáfora é uma obra de artesanato comunicacional, que demanda um trabalho simbólico a várias mãos e que foge de qualquer uniformidade de sentido. A metáfora explicita a “incontrolabilidade” dos processos de comunicação, pois, ao ser recebida, necessariamente, devido à complexidade da interpretação, ganha contornos muito distintos da forma como foi pensada ao ser emitida. A metáfora escancara o “espaço de liberdade” – retomando a mensagem papal – que toda comunicação deve reconhecer, ao se tratar de uma relação com um Outro, com um “não eu”, com uma alteridade.

Só a partir desse reconhecimento, como afirma Francisco, é possível “enxergar e iluminar a boa notícia presente na realidade de cada história e no rosto de cada pessoa”.