24
Sex, Nov

"Cuidado, o horror continua à espreita": a advertência de Bauman sobre o Holocausto

Artigos
Tipografia

“Existem razões de preocupação, escreve Bauman, ‘porque hoje sabemos que vivemos em um tipo de sociedade que tornou possível o Holocausto e que não continha nenhum elemento capaz de impedir a sua ocorrência’.”

 

O comentário é do escritor italiano Frediano Sessi, professor de Sociologia Geral da Universidade de Bréscia e de Didática da Shoá da Universidade de Roma Tre, e membro do comitê científico da Fondation Auschwitz, de Bruxelas.

O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 26-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto do online ihu.unisinos.br.

Eis o texto.

Ainda hoje, quando se fala sobre o extermínio dos judeus na Europa nazista, são muitos aqueles que recorrem à ideia de loucura coletiva para explicar esse mal absoluto.

Uma loucura coletiva não reconhecida pelas testemunhas diretas, se pensarmos que Primo Levi, em 1975, já escrevia que tinha encontrado em Auschwitz, entre os arquivos dos carnífices, homens como ele, nem loucos, muito menos sádicos. Homens comuns. Porém, diante daquilo que resta do universo do campo de concentração de Auschwitz, é recorrente o pensamento que se dirige àquela parte demoníaca dos homens que está sempre pronta para surgir na história, quase como se, em cada um de nós, estivesse incrustado um “pequeno Hitler”, pronto para prevalecer sobre tudo assim que aparecer uma boa oportunidade.

O próprio Zygmunt Bauman, na introdução de seu ensaio “Modernidade e Holocausto” (Ed. Zahar), confessa ter observado o extermínio dos judeus de modo distraído, como se fosse um evento extraordinário, longe do cotidiano, até que a sua esposa, Janina, escrevendo a sua história de sofrimento e de perseguição em 1986 (Inverno nel mattino. Una ragazza nel ghetto di Varsavia, Ed. Il Mulino, 1994), sugeriu-lhe um novo modo de olhar para o Holocausto. Uma tragédia que tinha atingido os judeus, mas que também dizia respeito a todos e, em particular, ao nosso modo de estar dentro do cotidiano; capaz de condicionar o nosso agir, além de incidir sobre o nosso pensamento e sobre as nossas escolhas.

Quando Bauman começou a escrever o ensaio (estamos no fim dos anos 1980), alguns historiadores já tentaram dar uma visão global do extermínio nazista dos judeus, mas sem se interrogarem sobre “por quê” isso tinha acontecido, mas detendo-se, em particular, na reconstrução do “como”, ou seja, reconstruindo aqueles mecanismos administrativos e burocráticos que possibilitaram o desencadeamento da violência. Em particular, entre os estudos que Bauman parece privilegiar, emerge o ensaio histórico de Raul Hilberg, “A destruição dos judeus da Europa”.

Justamente a intuição de Hilberg de considerar principalmente os documentos de parte nazista para explicar o trabalho dos burocratas, fragmentado e, às vezes, também caótico, que ia além do ódio dirigido aos judeus (já que muitos deles não eram antissemitas), estará na base da extraordinária intuição de Bauman, que entrevê na “modernidade” o motor do Holocausto.

A civilização moderna, escreve Bauman, caracterizada por uma exploração racional dos recursos, materiais e humanos, pela tecnologia em contínua evolução e por uma evidente cultura burocrática na base do funcionamento do Estado e da sociedade; com as suas quatro burocracias principais (das instituições públicas, das forças armadas, da economia e do partido) “representou, sem dúvida alguma, a condição necessária” sem a qual o Holocausto teria sido impensável.

Desse modo, o sociólogo de origem polonesa encaminhava-se para a explicação do “porquê” aquele mal absoluto tinha sido possível em uma Alemanha e em uma Europa que tinham alcançado níveis de civilização e cultura elevados.

E, no entanto, fora de todo equívoco ou simplificação (que, muitas vezes, foram causa de críticas injustas ao seu trabalho), Bauman especifica desde o início: “Isso não significa sugerir que o porte do Holocausto foi determinado pela burocracia moderna ou pela cultura da racionalidade instrumental que ela encarna, muito menos que tal burocracia deve necessariamente desaguar em fenômenos semelhantes ao Holocausto. Mas queremos efetivamente sugerir – conclui – que as regras da racionalidade instrumental são singularmente incapazes de impedir fenômenos desse tipo”.

As consequências a serem tiradas são uma advertência: sem a civilização moderna não teria havido nenhum Holocausto, porque “a destruição de massa dos judeus não foi só uma forma extrema de antagonismo e de opressão” ou de ódio coletivo. Não nos esqueçamos de que o antissemitismo sozinho, na história, nunca tinha levado a tais tragédias. E, em segundo lugar, quando se chega ao “homicídio em massa”, por causa da fragmentação das tarefas que se diferenciam e se articulam em várias instituições e burocracias públicas e privadas, “as vítimas se encontram sozinhas”.

A guerra dos Aliados contra os nazistas não podia se desviar dos seus projetos para frear as deportações e destruir as instalações de extermínio; as nações democráticas, por causa da crise econômica e alimentar, não eram capazes de acolher os judeus em fuga; o Vaticano devia defender as suas igrejas e os seus conventos da fúria hitleriana, assim como a Cruz Vermelha Internacional devia tutelar os militares internados mais do que se ocupar com a salvação dos judeus.

São apenas alguns exemplos da cegueira burocrática e política imbuída de modernidade, que provocou, nos fatos, o abandono dos judeus a si mesmos.

Portanto, existem razões de preocupação, se essa análise for verdadeira, escreve Bauman, “porque hoje sabemos que vivemos em um tipo de sociedade que tornou possível o Holocausto e que não continha nenhum elemento capaz de impedir a sua ocorrência”.

Então, a história pode se repetir? Para Raul Hilberg, sobre cuja obra se fundamenta em grande parte a aguçada reflexão de Bauman, a história já se repetiu; “na indiferença e diante dos olhos das democracias ocidentais, concretizou-se, em Ruanda, a tragédia dos Tutsi”. O abismo se abriu novamente diante de toda a humanidade. E quais são hoje os sinais premonitórios que os Estados democráticos e opulentos não sabem ou não querem ler?

Para isso, Bauman nos adverte com preocupação e paixão, “é cada vez mais necessário estudar as lições do Holocausto. Está em jogo muito mais do que o tributo à memória de milhões de vítimas”. O seu ensaio, então, volta a ser necessário, porque interroga o nosso agir como homens, postos diante das novas vítimas.

Bauman, escreve Donatella Di Cesare, “fez da Shoá o caleidoscópio através do qual é possível olhar para o abismo desumano” da modernidade, sugerindo que “o despedaçamento das responsabilidades”, capaz de nos afastar das consequências das nossas ações, é uma das heranças envenenadas de Auschwitz.