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Sex, Nov

A necessidade de sensibilizar o povo

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Foi com muito interesse que acompanhei o que o primeiro-ministro cabo-verdiano declarou na televisão do país, no mês de Julho deste ano, sobre a sensibilização da população para as questões de saúde. Penso que é a primeira vez que um problema de saúde pública de grande envergadura, como as doenças causadas pelos mosquitos (Zika, dengue, febre-amarela e malária) é dada tamanha atenção pelo governo cabo-verdiano e pelos meios de comunicação de massas no nosso país.

Por Domingos Barbosa da Silva

 

 

Penso que também há outros problemas que merecem uma atenção semelhante como a insegurança, a delinquência, a droga, o alcoolismo, etc.
Num país pequeno como o nosso, onde o desafio da sustentabilidade do sistema da saúde, de insegurança, de economia e da comunicação, constitui uma das maiores provações, todos os escassos recursos postos à disposição dos sectores têm de ser alvo de uma gestão eficiente, não somente do governo vigente, mas também de toda a oposição e da sociedade inteira.


Acho que alguns políticos não são suficientemente corajosos como o Sr. Ulisses tem sido ultimamente. Ele tem, nestes poucos meses de governação, declarado guerra aos problemas que assolam as ilhas de Cabo Verde. Não são poucos, infelizmente! Não são também poucos os desafios, abrangendo os mais elementares problemas de saúde, os problemas climáticos, a burocracia na administração pública, assim como os problemas estruturais da sociedade.


Vamos aqui concentrar-nos no problema da saúde como a prioridade das prioridades de qualquer governo. É evidente que este problema não começa com o esforço utilizado num discurso feito no pódio da casa parlamentar. Deve começar com a sensibilização da população, com criação de condições económicas e sociais para, por exemplo, combater os vectores de doenças, como os mosquitos da malária (paludismo), da dengue, do Zika e da febre-amarela.


Sensibilizar o povo não é tão fácil e não é suficiente para mudar a mentalidade, mas é necessário e muitíssimo importante. É um primeiro passo à frente em direcção certa a uma mudança radical da mentalidade da população acerca dos problemas atrás mencionados e outros de igual teor. Precisamos também de criar condições sociais e uma boa política ambiental para enfrentar as diversas dificuldades. Uma das dificuldades da política social é levar informação convincente a todos habitantes de Cabo Verde, inclusive os visitantes, de como se protegerem de doenças, principalmente das transmitidas através de mosquitos vectores. Aqui é oportuno mencionar o problema da higiene, principalmente no que diz respeito a tipos de bebidas ingeridas, água e refeições tomadas. E conveniente também dar atenção à ventilação das casas, em especial, o quarto de dormir, evitar maus cheiros e outros factores ambientais prejudiciais à saúde, a curto e a longo prazo.


Alguns políticos não estão interessados em pegar num problema social e transformá-lo num problema de debate nacional, envolvendo toda a sociedade e todos os partidos políticos. Podemos, mencionar a título de exemplo, a criminalidade, os problemas ambientais, os meios de comunicação entre ilhas, a droga, entre outros. Não debatem estes problemas ao nível nacional, por que os colocam numa posição de fogo-cruzado. Outros políticos são suficientemente corajosos e pragmáticos, mas encontram barreiras incontornáveis que os impedem de implementação de uma política social capaz de elevar o nível do desenvolvimento de cada cidadão.


Suponhamos que um dos objectivos de um governo, no campo sanitário, é reduzir ou eliminar o paludismo e outras doenças infecciosas. O paludismo ou malária, assim como o Zika e a dengue, é uma doença que está fortemente relacionada com o desenvolvimento económico de um país, e muito menos com as alterações do clima, como muitos defensores climáticos preferem dizer. A malária era, até há muito poucas décadas, endémica na Europa e nos Estados Unidos. Contudo, combateram-nos e ganharam a batalha contra o paludismo, apenas com base numa melhoria de saúde pública e numa boa política social, abrindo caminhos fáceis e baratos que reduziram as infecções significativamente.


O grande problema que se põe é o seguinte: o político, quando a situação aperta, entrega aos meios da comunicação de massas argumentos aparentemente convincentes que, por exemplo, o problema de doenças infecciosas realmente existe e que assola o país, e que tudo se deve ao fenómeno de aquecimento global. Mas embora saiba perfeitamente que há remédios contra esse mal, não procura implementar essa teoria na prática.


Sabemos que há vários factores que contribuem para o reaparecimento endémico ou epidémico do paludismo num qualquer país. A verdadeira razão pode ser: a resistência aos medicamentos, a falta de controlo dos mosquitos, o saneamento eficiente, isto é, uma série de dificuldades relacionados com a política social e a da saúde pública. Uma política social capaz de melhorar a saúde pública, a alimentação, melhor acesso a medicamentos, melhorias nos esgotos, programas de controlo de mosquitos, juntamente com o uso de sprays caseiros, desinfestação das habitações, cuidados com depósitos de água potável, educação da população urbana e rural assim como uma política social capaz de fazer crescer os rendimentos dos indivíduos, é capaz de reduzir o erradicar certas doenças num país. Pois, geralmente pessoas com bons rendimentos económicos alimentam-se muito melhor, mantêm a casa em melhor estado de conservação, mais asseada, podem mesmo colocar redes para impedir a entrada de insectos e se adoecerem, têm mais capacidade para pagar a assistência médica e medicamentos necessários.


O paludismo, por exemplo, não é apenas causado pelo aquecimento global, visto que, apesar do aquecimento global nas últimas décadas, temos provas convincentes de que a doença foi eliminada na Europa e nos Estados Unidos. O desleixo, a falta de uma política social sólida contribuem para o seu repetido retorno. Precisamos, portanto, de uma política social capaz de introduzir na sociedade um sistema de saúde eficaz que abranja um conjunto de diversos factores, desde a alimentação ao autocuidado de saúde, da melhoria dos esgotos à erradicação dos mosquitos vectores e dos aumentos de rendimentos à disponibilidade de tratamentos médicos. Para isso, os políticos devem sempre repetir nos meios de comunicação de massas palavras de ordem e tudo que possa contribuir para sensibilizar a população no sentido de criar um meio social livre de produtos contaminadores e tóxicos que degradam a nossa saúde pública e individual.


Podemos encontrar, em quase todos os países em vias de desenvolvimento, falta de infra-estruturas, de sistemas de saúde eficazes e de uma boa política social. O nosso país encontra-se situado na faixa que atravessa o continente africano ao meio onde as temperaturas e as precipitações criam as condições perfeitas para os mosquitos vectores de malária, Zika, febre-amarela e dengue. Grande parte desta faixa do continente tem governos fracos, pobres e frequentemente corruptos, com grandes dificuldades em implementar a lei, construir esgotos em grande escala e desinfestações das casas, das águas estagnadas, etc. As populações desta faixa do continente africano são igualmente caracterizadas por uma saúde débil, com a má nutrição e o VIH (HIV) a interligarem-se com a malária e outras doenças. A pobreza torna mais difícil a criação de medidas preventivas e a obtenção de medicamentos eficazes. A pobreza é, muitas vezes, um produto da corrupção, de maus governos. Pois não há países pobres, mas sim maus políticos e estes muitas vezes corruptos até ao tutano.


Uma recolha de lixo antes da sua putrefação, um tratamento que ao mesmo irá ser dado, um bom planeamento de novas unidades sociais, isto é, a urbanização de aldeias e cidades, contribuem decididamente para uma melhor sociedade livre de muitas doenças que exigem tratamento dispendioso como a SIDA e muitas outras doenças transmissíveis.


Acresce aqui que as preocupações dos governos ocidentais quanto ao uso de DDT, por ser cancerígeno e tóxico, dificultam a utilização deste insecticida que é mais barato e mais eficaz contra mosquitos, o que, corretamente utilizado, tem um impacto ambiental bastante insignificante.