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Dom, Dez

Depressão no século XXI. Entrevista especial com Maria Rita Kehl

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A década de 1990 não trouxe apenas uma revolução tecnológica às sociedades, mas também uma readaptação ao novo tempo. As novas tecnologias, somadas ao avanço do capitalismo, fazem com que tudo aconteça numa velocidade tão rápida que, muitas vezes, não conseguimos acompanhar. Assim, a última década trouxe consigo também o aumento das depressões nas sociedades ocidentais, conforme concluiu Maria Rita Kehl* numa entrevista concedida à IHU.

 

  

Confira a entrevista.

Quais são as manifestações mais freqüentes da depressão na sociedade contemporânea?

Geralmente, as manifestações são as mesmas de sempre, ou seja, as pessoas desacreditam de tudo. Começam a se recolher cada vez mais e não querem mais freqüentar espaços públicos. É quando alguma coisa se confunde com o que a chamamos, na psicanálise, de fobias, como a síndrome do pânico. Isso porque a vida pública está muito violenta, não só em razão do número de assaltos, porque, a meu ver, esse não é o ponto principal. A vida ficou muito violenta porque, entre os jovens, ir para a festa, para a rua, traz um risco de exigência, de gozo e de diversão muito grande. Creio que uma das expressões disfarçadas da depressão é o que a psiquiatria chama de síndrome do pânico. Nessa síndrome, existe uma depressão. Trata-se de alguém que se desencorajou do mundo, que está se sentindo sem força, sem interesse. Às vezes, as drogadições refletem ou exprimem uma depressão das pessoas que não conseguem viver sem elementos químicos. É preciso não confundir. Não é que todo pânico e toda drogadição indiquem depressão, mas em alguns casos pode-se confundir o diagnóstico.

 

Mas a forma como a depressão se manifesta é diferente de como ela se manifestava há dez, 20 anos?

Não é a forma, e sim a quantidade. Aumentou o número de casos de depressão de uma maneira muito significativa. As organizações de saúde estimam que a depressão é a epidemia das doenças mentais do século XXI.

 

E por que aumentou?

Eu acho que o aumento da depressão guarda relação com a parte social, porque, evidentemente, existe a questão individual. Não estou abordando isso agora. Penso que aquilo que depende da vida social tem dois fatores muito importantes: um é a velocidade da vida contemporânea, que atropela o que chamamos de vida psíquica. A velocidade da vida faz com que, desde criança, sejamos estimulados a entrar numa espécie de vida muito competitiva, para mostrar resultados e de que topamos tudo. Esse elemento da velocidade contemporânea apresenta uma “violência” que atropela o tempo psíquico. Essa é uma das minhas hipóteses. A outra hipótese também é a de que as condições de inclusão social, hoje, para a pessoa se sentirem incluídas e aceitas, são muito diferentes daquelas da primeira fase do capitalismo. Nela, tratava-se de uma questão de força, de trabalho, não sendo uma coisa muito boa. No entanto, sabíamos que uma parte da subjetividade do indivíduo estava salva desse problema. Ou seja, ele estava entregando uma parte dele para a sociedade, para o trabalho, para a economia, para o capital, mas a outra parte estava salva. Hoje, o capitalismo, nessa fase espetacular, exige das pessoas justamente o seu gozo. A forma de inclusão significa que você seja capaz de gozar do consumo, da farra, da bebida, da imagem. Ele desapropria o que é mais íntimo de cada um.

 

De que forma podemos conduzir melhor essa angústia entre o vazio que o capitalismo exarcebado nos faz ter e o fato de dependermos totalmente do dinheiro?

Uma coisa não tem nenhuma relação com a outra. Depender de dinheiro significa que a pessoa trabalha. Outra questão é ela depender do consumo. A questão do capitalismo, hoje, não é só precisar trabalhar, porque as pessoas já trabalhavam fora do capitalismo. Nesse sentido, a questão não é ter que trabalhar para viver, afinal o indivíduo depende do dinheiro. O problema é a pessoa existir por meio das suas atitudes de consumo. Disso cada um pode se livrar. Tudo depende da sua capacidade de consumo e do estilo de consumo seguido. Isso é muito diferente de depender de dinheiro. Os depressivos são aqueles que não conseguem responder a esse tipo de apelo.

 

O econômico, hoje, está acima da moral e da ética?

Sim, está. Nós percebemos. Está até acima do político, como vemos nas tramitações dentro do Congresso.

 

Qual é a imagem que podemos ter do futuro do mundo a partir desse crescimento, ao mesmo tempo, do capitalismo e das depressões?

Nós precisamos voltar para tentar entender o que o passado produziu. A imagem do futuro eu não tenho. A psiquiatria afirma que as pessoas precisam ser medicadas para que voltem a estar de acordo com essa farra. É assim que a psiquiatria leva em consideração o aumento das depressões, ou seja, ela pensa em medicar para readaptar o sujeito. Se os indivíduos forem levados em conta pela psicanálise, pela filosofia, pelas políticas públicas como sinais de mal-estar, de que as condições que a sociedade está impondo são muito pesadas, então as depressões podem justamente o sinalizador para mudança. Eu não sei como irá se construir isso. Eu acho que as depressões não são um mau sinal, sendo sintomas sociais, justamente do sinal de que algo precisa ser curado. Em psicanálise, nós  recebemos o sintoma com otimismo, porque ele mostra que a neurose não está funcionando e que o sujeito quer sair de determinada maneira de funcionamento. Então, eu acredito que o crescimento das depressões precisa ser levado em conta para repensarmos a nossa vida social.

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*Maria Rita Kehl é doutora em psicologia clínica pela USP, psicanalista, ensaísta e poeta. É autora de A mínima diferença - o masculino e o feminino na cultura (Rio de Janeiro: Imago, 1996); Ressentimento (São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004); e Sobre ética e psicanálise (São Paulo: Companhia das Letras, 2005), entre outros livros.

 

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